quinta-feira, 10 de agosto de 2017

"Kung Fu Yoga" (Gong Fu yu jia, 2017)


“Botched” é um programa americano exibido em Portugal no canal E!, de entretenimento entenda-se, que dá a conhecer sem censura starlets e outros cidadãos anónimos que contactam os cirurgiões de serviço para corrigir ou esconder a porcaria que outros cirurgiões fizeram nas suas mais diversas partes do corpo. A maioria das vezes os cirurgiões do programa conseguem fazer algo para conseguir resgatar a dignidade perdida ou apenas uma aparência estética mais agradável. Digamos que “Kung Fu Yoga” é um filme chinês submetido a uma cirurgia plástica para se assemelhar a uma verdadeira colaboração com o cinema de Bollywood mas a operação cosmética não correu muito bem.

Jackie Chan é Jack um professor de arqueologia do museu chinês de soldados de terracota que se junta uma especialista indiana, a professora Asmita (Disha Patani), para encontrar o fabuloso tesouro Magadha que se deve encontrar algures no Tibete. Ao chegar lá, eles e os seus assistentes, entre outros Jones Lee - Aarif Rahman numa homenagem ao famoso Dr. Jones –, Xiaoguang (Zhang Yixing) e Noumin (Miya Muqi) são surpreendidos por Randall (Sonu Sood) um indiano rico que pretende ficar com o tesouro para si.

Dizer que a homenagem aos filmes de “Indiana Jones” é flagrante é um eufemismo. A personagem de Aarif Rahman não só se chama Jones e utiliza um chicote como é um arqueólogo intrépido. No entanto, todos os indícios de que estariam grandes aventuras por vir não passam disso mesmo. Ele é apenas mais uma das personagens que se passeiam pelo ecrã na qualidade de eye candy e sem apresentar um contributo importante para a narrativa, ela própria pouco mais que perceptível. Por outro lado, não é uma grande novidade e mais uma vez fica bem expresso no ecrã que Jackie Chan já não é o atleta de outros tempos. Ora isso não tem mal nenhum e deixem assentar por um momento a informação de que Chan nasceu em 1954. À data deste filme e com 63 anos ele consegue fazer movimentos com o corpo que jovens com metade da sua idade são incapazes. O seu carisma permanece intacto e ele continua a ser quem tem o melhor timing cómico do elenco multicultural. Com tantos jovens atléticos incluindo novas esperanças do mandopop como Yixing Zhang que tem aptidão para coreografias complexas é surpreendente que este potencial nunca chegue a ser explorado para criativas cenas de acção que possam preencher as evidentes lacunas de Chan. As cenas de acção ficam pois aquém daquilo de que Chan já fez e o vasto elenco poderia fazer. Talvez. Nunca saberemos. Mais estranho ainda é o facto de “Kung Fu Yoga” constituir uma das reuniões menos felizes de Chan com Stanley Tong, depois de “Rumble in the Bronx” (1995) ou “The Myth” (2005). Quem não soubesse diria que não estiveram para despender muita energia. “Kung Fu Yoga” também representa um retrocesso na carreira de Chan que já demonstrou ter capacidade dramática e parecia estar a encaminhar a sua carreira para escolhas mais calmas para o seu físico. Ainda que sejam sempre um regalo para a vista as cómicas e complexas sequência de acção de Jackie Chan, ele já fez muito melhor e, na verdade, quem é que quer ver Chan tornar-se embaraçoso, numa carreira antes gloriosa enquanto artista de cinema e artes marciais?

Uma das cenas mais marcantes deste filme envolve ainda Chan e um animal virtual que é representativo do pior CGI de que o cinema chinês é capaz, como também sucedeu no recente “The Mermaid” (2016) de Stephen Chow, um dos filmes com maior sucesso de bilheteira no país de sempre, e que falha de forma tão arrasadora no campo dos efeitos gerados por computador. Também a colaboração entre a Índia e a China se revela desinspirada. De facto o filme parece adoptar uma perspectiva etnocêntrica que é claramente desvantajosa no que respeita ao retrato da Índia. De facto, todas as alusões ao país surgem sobre a forma de estereótipos chineses do que é o grande país. Algumas situações são retiradas quase a papel químico dos filmes dos anos 80 e 90 como o “Indiana Jones”. Um sucedâneo de qualidade inferior made in China que não o consegue disfarçar. Duas estrelas.
Realização: Stanley Tong
Argumento: Stanley Tong
Jackie Chan como Jack
Disha Patani como Ashmita
Amyra Dastur como Kyra
Aarif Rahman como Jones
Miya Muqi como Nuomin
Sonu Sood como Randall
Paul Philip Clark como Max
Yixing Zhang como Xiaoguang

Próximo Filme: "Annabelle: creation" (2017)

quinta-feira, 13 de julho de 2017

Get Out (2017)


Imaginem que é noite escura e percorrem sem qualquer companhia as ruas de um subúrbio deserto. Estão perdidos e não conseguem compreender onde se situa a casa que queriam encontrar. Vão no passeio e na estrada a vosso lado, começa a circular um carro com uma música antiquada e um pouco arrepiante. Conseguem visualizar o cenário seguinte? Se fosse uma mulher sozinha certamente, uma caminhada solitária nocturna seria uma péssima ideia. Nos Estados Unidos, numa época em que as tensões raciais se encontram muito elevadas e existem inúmeras acusações de preconceito racial por parte da polícia, um homem de raça negra caminhar sozinho nestas circunstâncias é uma mistura explosiva.

Daniel Kaluuya é Chris um fotógrafo profissional de sucesso que está nervoso por conhecer os pais de Rose (Allison Williams), com quem namora há alguns meses. Ela é caucasiana e nunca namorou com um homem de outra raça mas está certa que os seus pais ultra modernos e liberais não terão qualquer problema a esse respeito. Na verdade Rose está bastante sensibilizada para as questões raciais, sendo até demasiado protectora a esse respeito, uma característica que o namorado considera enternecedora, ainda que ele se consiga defender sozinho. Talvez ela esteja a exagerar e reveja laivos de racismo até onde eles não existem mas Chris tem mais reservas sobre o modo como irá ser recebido durante o fim-de-semana. Está inclusive disposto a apresentar a sua melhor face e suportar quaisquer equívocos que possam surgir por Rose. Já o seu grande amigo Rod (LilRel Howery), um agente da TSA habituado a deparar-se com situações de racial profiling e atento ao que se passa nos media é mais céptico a esse respeito. Tudo parece correr bem a início. Os pais de Rose, o neurocirurgião Dean (Bradley Whitford) e a psiquiatra Missy (Catherine Keener) recebem-no como se fosse o membro mais recente da família. Poderão parecer demasiado curiosos e investidos no novo namorado da filha. Mas é nos empregados Walter e Georgina, de raça negra que Chris manifesta as suas maiores reservas. O seu comportamento é sinistro e misterioso. As suas acções simplesmente não se coadunam com a experiência de Chris enquanto pessoa de raça negra e a história dos seus antepassados. À medida que o fim de semana vai passando e, isso inclui uma sessão de hipnose realizada a despeito das suas objecções pela mãe de Rose, Chris começa a questionar-se se sofre de paranoia motivada por casos recentes, como Rod tão bem e de forma cómica o faz recordar ou se de facto se passa algo muito mais estranho. Rod serve de Grilo Falante, uma consciência, se preferirem -, do realizador e para toda a audiência que grita em coro para o ecrã, que algo está muito errado! Corre Chris! Foge!

Rod não tem a reserva ou censura de Chris que se encontra toldado pelo sentimento amoroso e por um optimismo um pouco infantil. Rod representa por tudo isto, os momentos mais engraçados e auto-conscientes de “Get Out”, ecoando uma espécie de Randy (Jamie Kennedy, em “Scream”), tendo ainda uns laivos do injustiçado "The Skeleton Key" (2005).
Desde os primeiros minutos que não existe qualquer dúvida sobre a mensagem que Jordan Peele pretende transmitir. A primeira é tão meta quanto o “Scream” (1996) de Wes Craven com argumento de Kevin Williamson foi no seu tempo: se algo parece mau e cheira a mau provavelmente é mau. Sigam os instintos. Corram! A segunda é a de que desde “Guess who’s Coming to Dinner” (1967) se calhar ainda muito pouco mudou no que diz respeito ao modo como as relações inter-raciais são percepcionadas pela sociedade. Aproveita ainda para dar uma alfinetada às classes média/média alta educadas e bem sucedidas e obriga-as a observar-se com verdadeiro espírito crítico ao espelho. Ao invés de investir na carga dramática Peele dá-lhe uma volta de 180º e pega nas questões de identidade e de raça através dos géneros de humor e terror sem apresentar falta de gosto no processo. “Get Out” foi uma das manifestações mais interessantes e originais do terror nos últimos anos e não menospreza o seu público-alvo. Perdoam-se-lhe talvez algumas cenas mais fortuitas como a do atropelamento de um animal (quantas vezes é que já vimos nos últimos anos??) mas não envergonha. Três estrelas e meia.

Próximo Filme: "Kung Fu Yoga" (Gong fu yu jia, 2017)

domingo, 11 de junho de 2017

Headshot, 2016


O cinema indonésio tem estado sobre a mira do público internacional, tendo conseguido exportar – com algum sucesso admita-se –, actores como Iko Uwais, Yayan Ruhian, Julie Estelle ou Joe Taslim. Também a dupla Stamboel/Tjahjanto, mais conhecida como os “Irmãos Mo”, não são novatos nestas lides desde que chamaram a atenção pelo fantástico “Macabre” (2009), uma espécie de “The Texas Chain saw Massacre” (1973) dos tempos modernos, tendo-se destacado por terem criado algumas das intervenções mais criativas e interessantes em antologias de cinema a oeste, da 2ª década do novo milénio (“ABC’s of Death”, 2012 e “V/H/S/2”, 2013). A pressão para gerar novos sucessos de bilheteira deve ser tão grande quanto a sentida por Ishmael (Iko Uwais), o personagem principal de “Headshot” que encontra mauzões em cada esquina, os quais chacina com brutalidade, minuto após minuto de acção frenética e um pouco louca. A movê-lo está um dos clichés mais utilizados, irritantes e cansativos em cinema ou telenovela. O pobrezinho sofre de amnésia. Encontrado numa praia como morto, ele é assistido pela Dra. Ailin (Chelsea Islan), a personagem mais desesperada por afeição que tenho visto nos últimos tempos. Que importa que ele tenha uma bala na cabeça? Qual é o mal de alguém ter tentado assassiná-lo? Pelos vistos o desconhecido misterioso é atraente e, se for bonzinho, como aparenta, uma vez que depende da boa vontade de estranhos já que não se recorda do próprio nome, deverá ser fácil amestrá-lo até se tornar o namorado perfeito. Ela até lhe dá o nome do personagem principal do livro que está a ler naquele instante: Ishmael um marinheiro resgatado com vida após o encontro funesto do seu barco com a baleia Moby Dick. Tão romântico. Até que ele é visto pelos mauzões que lhe espetaram com uma bala na cabeça. Eles pertencem a uma seita secreta de assassinos e gostariam que desta vez ele ficasse morto. Ailin acaba por ser raptada e Ishmael toma a decisão de a resgatar, mesmo que isso implique descobrir factos menos abonatórios sobre o seu caracter pré-amnésia.

Para este filme os irmãos Mo vão reciclam estórias clássicas do cinema de acção e vão repescar estórias do próprio corpo de trabalho, de que “Killers” (2014) ou “V/H/S/2” constituem um bom exemplo. Existe um entendimento perfeito de que o argumento é secundário. “Heashot” poderá afugentar alguns cinéfilos devido à sua matriz base que é repetitiva. As suas qualidades encontram-se antes nos momentos de combate corpo a corpo, coreografados pelo próprio Uwais e intercalados com acção bélica que faz recordar “The Raid 2” (2014). A título de exemplo, um dos instantes que ficarão para a estória envolvem um autocarro cheio de inocentes e armas. Muitas Armas. O filme tem ainda alguns repetentes tais como Julie Estelle e Very Tri Yulisman que retomam os papéis de “The Raid 2” “Rapariga do Martelo” e “Rapaz do Taco de Baseball”, perdão, como “Femme fatale do facalhão” e o “Assassino Hipster”. Quem pode julgar os “manos Mo” por estas brincadeiras? Eles sabem o que o público quer ver? Os actores é que poderão se cansar de interpretar o mesmo saco de pancada vezes sem conta. As cenas de luta são longas e extenuantes, exageradas e irrealistas mas que ninguém diga que não têm estilo ou não ficam na memória. Morte por facalhão, catana, metralhadora são o pouco nosso de cada dia. Apenas o estilo shaky cam acaba por confundir mais em alguns momentos do que a compreender a acção dura que se vê no ecrã.

O cinema de acção indonésio apresenta-se como a solução para colmatar o vazio entre a acção ultra-violenta mas estilizada do cinema coreano e o wire fu de uma Hong Kong que parece ter-se esquecido dos seus “Hard Boiled” ou “A Better Tomorrow”. Falta apenas encontrar um meio-termo entre a sofreguidão das cenas de acção e a exigência de um argumento que apresente uma estória nova que valha a pena contar através deste estilo tão peculiar. Duas estrelas.

Realização: Kimo Stamboel e Timo Tjahjanto
Argumento: Timo Tjahjanto
Iko Uwais como Ishmael
Chelsea Islan como Ailin
Sunny Pang como Lee
Very Tri Yulisman como Besi
Julie Estelle como Rika
Yayu A.W. Unru como Romli

Próximo filme: Get Out, 2017

domingo, 16 de abril de 2017

"Knock Knock! Who's There?" (2015)


Hong Kong não parece querer abrandar a produção massiva de filmes de terror. Como se costuma dizer quantidade não é sinónimo e qualidade. E “Knock Knock! Who’s There?” não apresenta qualquer pretensão em ascender à parte superior da tabela.

Carrie Ng é uma actriz veterana de Hong Kong que conseguiu emergir de uma sucessão de maus filmes de categoria III e efetuar com sucesso a transição para o cinema destinado ao grande público. Mas se o tempo foi seu amigo e lhe trouxe respeito e reconhecimento internacional não lhe trouxe jeitinho nenhum para a realização… Entre outros pecados cai no erro da antologia. Ao invés de se focar em retratar uma boa estória foca-se em três, cada uma mais desfocada que a anterior. 
Em “Missing” Isabella (Annie Liu) morre num acidente rodoviário aparatoso ao tentar escapar dos paparazzi que a perseguem e ao seu noivo Harry (Carlos Chan). Inquieto, o seu espírito permanece na casa mortuária onde trabalha Roy (Babyjohn Choi), uma velha paixão. Diz que se reacende a acendalha do amor, que é impossível de concretizar dado… bem, dado o facto de ela estar morta e assim mas pronto, diz que o amor é cego e pelos vistos também imortal.

Segue-se-lhe “Karma” e Carrie Ng interpreta Ngo uma agente funerária viciada no jogo que ouve falar de uma susperstição, segundo a qual, se ela enterrar um gato vivo, será bafejada com grandes riquezas. Na sua ganância, ela comete o erro de matar o gato da sua sobrinha Shou (Kate Tsui). Tímida e quieta, ela recusa ignorar o acto atroz cometido pela tia e vai rebelar-se.
Em “Smell” Yan (Jennifer Tse) é uma artista especialista em tornar os mortos apresentáveis para as exéquias fúnebres que não larga o telemóvel. Um dia recebe uma mensagem de Mei-Mei (Nicola Tsang), alguém que não conhece mas com quem simpatiza de imediato. Mei-mei pede-lhe para ir buscar algo por ela e Yan decide ajudá-la, enfiando-se num bairro pouco recomendável da cidade…
“Knock Knock! Who’s There?” é uma miscelânea de estórias com um tom desigual e emprestado a tantos outros que lhe sucederam. Em casos pontuais, que podem ser encontrados em Eric Kwok e Jennifer Tse e, dada a sua experiência afigura-se uma rara tentativa de elevar o material mas o esforço é insuficiente para apagar o meu gosto deixado pelo mau argumento e direcção.

À excepção da sequência inicial, na qual Isabella sofre uma morte violenta que envolve paparazzi sem escrúpulos e um camião do lixo, “Missing” podia ser ignorado quase na totalidade. Para uma antologia que é vendida como sendo de terror, este primeiro segmento é romântico e enfadonho. Está também repleto de cenas inconsequentes. Isabella torna-se um fantasma dado ter assuntos por resolver, assuntos do coração entenda-se, um pouco como “Ghost” (1990). Entre outras descobertas percebemos que o noivo que deixa vivo não lhe desperta interesse além de um velho amor, terminado de forma precoce e absurda devido à interferência da família dela. O que resulta desta revelação? Nada. E a ameaça de espíritos maus nesta terra a Isabella também desaparece tão rapidamente quanto surge.“Karma” é uma velha estória de crime e castigo e embora Carrie Ng sobressaia no papel de vilã, isto não é necessariamente positivo. “Karma” assemelha-se mais a um produto feito para televisão –meia hora de distracção –, do que uma película para televisão. Apesar de algumas ideias interessantes e com potencial inovador, tais como a possessão por um gato e algum mau CGI, o segmento nunca se consegue elevar como algo mais do que medíocre. “Smell” é um título alusivo ao cheiro de cadáveres em decomposição e o que acompanhamos é a viagem de uma mulher (Jennifer Tse) que trabalha no ramo da morte até ao seu encontro. “Smell” é o segmento mais brutal da antologia, no entanto, pouco mais tem do que isso e surge em quantidades muito pequenas, demasiado tarde. Considerando o constrangimento do orçamento os maus efeitos visuais podiam ser perdoados se mais alguma coisa, o que quer que fosse, tivesse um nível superior. Mas isso nunca sucede e, acreditem, para quem acreditou até ao fim por algum tipo de retorno a espera é penosa. “Knock Knock” é o tipo de filme que faz questionar se vale a pena insistir com o visionamento de filmes de terror made in Hong Kong. É que este filme já nem é só formulaico, é horrível e uma perda de tempo. Mais valia não ter aberto a porta a esta sugestão. Uma estrela e meia.


Realização: Carrie Ng Ka-Lai                      
Argumento: Carrie Ng Ka-Lai, Frankie Tam e Yip Ming-Ho           
Segmento: “Missing”
Annie Liu como Isabella
Carlos Chan como Harry
Babyjohn Choi como Roy

Segmento: “Karma”
Kate Tsui como Shou Yun
Carrie Ng como Ngo
Simon Lui como Tong

Segmento: “Smell”
Jennifer Tse como Yan
Nicola Tsang como Mei-Mei

Eric Kwok como “Assassino”


Próximo Filme: Headshot, 2016

quinta-feira, 30 de março de 2017

"Spiral" (Uzumaki, 2000)


Kirie (Eriko Hatsune) é uma estudante que vive em aparente felicidade em Kurouzu, numa pequena vila japonesa. Vive uma relação de amor platónico com Shuichi (Fhi Fan) e o pai Yasuo (Tarô Suwa) foi recentemente reconhecido pelo trabalho enquanto escultor. Ela aparenta dividir com positividade o tempo entre a escola e a casa. Que mais podia uma garota querer?
Um dia, Kirie passa na rua pelo pai de Shuichi, Toshio (Ren Ôsugi), que se encontra a filmar um caracol. Ela cumprimenta-o mas ele parece nem se dar conta da presença dele. Entretanto, Shuichi pede-lhe para fugir com ele para a cidade. Passa-se algo de muito estranho. Algo que nem mesmo ele compreende e que está a afectar o pai dele. Obcecado por tudo quanto tenha que ver com espirais, o comportamento de Toshio torna-se cada vez mais bizarro e preocupante. Como se nem a própria família tivesse qualquer importância até se deixar consumir por completo pelas espirais. E ele é apenas uma de muitas vítimas. Os colegas de Kirie e outros habitantes começam a ficar tomados pela loucura das espirais. Uma espécie de possessão colectiva que contamina aos poucos Kurouzu. Os personagens perdem o seu lado funcional, deixam de viver para se concentrar nos padrões em espiral que vêem em todo o lado: num caracol, ou umas escadas, em peças de cerâmica, no céu… Apenas Kirie permanece incólume ao que se passa à sua volta.

“Spiral” é um conto de obsessão. Como tal, Higuchinsky (sim, é este o nome do realizador, de origem ucraniana e japonesa), fez questão de inserir espirais, umas vezes de modo cirúrgico, outras mais explicitamente, com caracter crescente conforme a película avança. O tom esverdeado da película que faz recordar por exemplo, um “The Ring” (2002), é convincente para a construção de uma realidade paralela. A somar à cinematografia soberba na sugestão da ideia de loucura contagiante, estão ainda todo o tipo de truques de câmara que contribuem para tornar não só a atmosfera (do filme) louca, como, indicar ao próprio espectador a insanidade do que está a visionar! Dá ares de experimental e isso é interessante tanto mais que nunca se chega a saber se tal se deve a momentos de genialidade ou sorte. As críticas são na maioria favoráveis e parecem apontar a primeira mas não estou assim tão convencida.

“Spiral” baseia-se numa manga (longa) de Junji Ito. Se já é difícil condensar os eventos de um livro num só filme, supõe-se que será muito mais adaptar uma série de carácter semanal que se estendeu por um ano! Porventura, seria mais complicado explicar uma estória tão complexa ou Higushinsky perdeu-se na forma e esqueceu o conteúdo. Além de interacções forçadas entre o duo de protagonistas e representações hórridas, o filme move-se a passo de caracol. Existem algumas cenas muito interessantes incluindo uma metamorfose num destes moluscos, um incidente com um eletrodoméstico ou até a exibição de um penteado de fazer inveja às principais casas de alta-costura. Há qualquer coisa de em “Spiral” que faz aludir a autores como o David Lynch. No entanto, continua a persistir uma enorme dificuldade em proceder à sua classificação enquanto género. É ainda hoje apresentado como o mais original entre os filmes de terror desse ano, sendo que mais de uma década volvida, continua a não existir muito material que se lhe compare nesses termos. As mortes são sem dúvida peculiares e é capaz de nos fazer olhar em redor e perceber que há muito mais espirais nas nossas vidas do que poderíamos pensar. Mas será mesmo um filme de terror? Duas estrelas.

Realização: Higuchinsky
Argumento: Junji Ito (manga), Kengo Kaji, Takao Nitta e Chika Yasuo
Eriko Hatsune como Kirie Goshima
Fhi Fan como Shuichi Saito
Hinako Saeki como Kyoko Sekino
Eun-Kyung Shin como Chie Marayama
Keiko Takahashi como Yukie Saito
Ren Ôsugi como Toshio Saito
Denden Denden como Officer Futada
Masami Horiuchi como Reporter Ichiro Tamura
Tarô Suwa como Yasuo Goshima
Toru Tezuka como Yokota Ikuo
Sadao Abe como Mitsuru Yamaguchi
Asumi Miwa como Shiho Ishikawa

Próximo filme: "Knock Knock! Who's There?" (2015)

quinta-feira, 23 de março de 2017

"House" (Hausu, 1977)


Segundo reza a história, estávamos nos loucos anos 70, quando o estúdio Toho – sim, esse mesmo do Godzilla (1954) –, impressionado pelo sucesso de “Jaws” (1975) encomendou a Nobuhiko Obayashi um filme similar. Sem inspiração e, confiando que a veia artística é de família, Obayashi foi buscar ideias à fértil imaginação de Chigumi, a sua filha então menor. O resultado foi tão pouco convencional que durante anos ninguém quis pegar no argumento incompreendido de Obayashi. Finalmente, o estúdio cedeu o total (des)controlo criativo ao argumentista e assim nasceu um filme que se diria ter sido influenciado pelas tão mal-afamadas drogas dos anos 70. E que viagem “House” se revelou.

Angel (Kimiko Ikegami) rebela-se após o seu pai revelar que encontrou uma nova namorada após anos de viuvez. Angel não gostou de Ryoko (Haruko Hanibucho) apesar da abordagem afectuosa desta e, decide, por despeito, passar as férias de Verão com as amigas e a tia (Yoko Minamida), irmã de sua mãe, que apenas viu em pequena. A tia acolhe-a de braços abertos no casarão onde habita sozinha, no meio de uma floresta. E mal pode estar por estar rodeada de juventude, ela, que se queixa de já não haver jovens na sua localidade. Ainda nos primeiros instantes da introdução da tia, professora de piano, é-nos dado a conhecer uma vida trágica. O noivo partiu para a Guerra mas nunca retornou e ela, nunca desistiu de esperar pelo seu regresso.

Desde os créditos iniciais que é transmitida a ideia de que “House” é uma experiência cinematográfica um pouco diferente. Mas podem referir-se a “House” apenas como uma experiência. O filme tem muito mais de captura dos excessos e defeitos dos anos 70, do que produto cinematográfico. O estúdio desistiu de “House” e deixou Obayashi fazer o que desejasse e isso nota-se. Mais do que a imaginação de uma criança, por incoerente que esta possa assemelhar-se, sobressai todo um look louco, repleto de objectos animados, animais malditos e muito amadorismo que se torna divertido se, (e isto é um grande se), for visionado com bastante distanciamento.
As garotas que dão nome a algumas personagens tão estereotipadas como Angel, Kunfû (Kung Fu), Fanta (Fantasy), Makku (Mac) ou Merodî (Melody), entre outras, são actrizes amadoras que não foram, decerto, selecionadas pelas suas excelentes capacidades dramáticas. De facto, várias actrizes nos mais variados momentos surgem desnudas. Longe de mim imaginar que a popularidade do género exploitation teve algo a ver com isso… Mas quem fala da falta de aptidão dramática das meninas não pode deixar de esquecer personagens como o vendedor de melancias, o próprio Obayashi num momento Hitchcockiano e que aparece para dar pistas de que o casarão esconde algo do outro mundo… E o que de lá vem não é tão macambúzio quanto o cinema de terror de finais dos anos 90 e novo milénio fariam crer. Quem disse que os fantasmas/poltergeists ou seja lá o que for, não têm sentido de humor? Os elementos de terror baseiam-se em momentos de profundo exagero musical, que funcionam como berros aos ouvidos ou até a repetição vezes sem conta de uma composição em particular, tal como as crianças costumam fazer. Além disso, temos alguns efeitos especiais sui generis, seja pelo enquadramento criativo da câmara, dos efeitos dignos de um estudante no primeiro ano do curso de cinema ou efeitos animados dissonantes do contexto que os envolvem. Por mais incrível que pareça, por baixo das camadas de maus efeitos especiais e gargalhadas involuntárias Obayashi faz algumas alusões à tragédia maior da História do Japão seja mediante a estória de um noivo desaparecido na guerra ou de uma personagem que arde até nada mais restar no seu lugar. Temos, por outro lado, as bases para o género da comédia de terror e das estórias de casas assombradas que por um motivo ou por outro entram em casarões e… nem sempre saem com vida. Duas estrelas.

Realização: Nobuhiko Obayashi
Argumento: Chigumi Obayashi
Kimiko Ikegami como Angel
Miki Jinbo como Kunfû
Kumiko Ohba como Fanta
Ai Matsubara como Gari
Mieko Satô como Makku
Eriko Tanaka como Merodî
Masayo Miyako como Suîto

Próximo Filme: "Spiral" (Uzumaki, 2000)

domingo, 5 de março de 2017

"The Handmaiden" (Agassi, 2016)


Chan-wook Park, realizador de filmes tão brilhantes e brutais como a trilogia da Vingança (2002-2005), um dos melhores segmentos da antologia de terror “Three… Extremes” (2004) ou ainda o injustamente ignorado “Snowpiercer” (2013) ainda não encontrou um desafio que não pudesse superar. Desta feita adaptou um romance gótico-vitoriano “Fingersmith” de Sarah Waters escrito em 2002 e transportou-o para a Coreia dos anos 40, ocupada pelo invasor Japão. Tanto quanto me foi dado a perceber (obrigada Google!), a essência e a motivação das personagens permanece a mesma contudo, elas seguem o rumo que Chan-wook Park lhes quis dar. Este thriller erótico-dramático foi escrito por uma romancista mas as personagens são tão familiares, tão intrinsecamente ligadas à obra de Chan-wook que quem não saiba dirá com facilidade que “The Handmaiden” é 100% fruto do seu imaginário.


Hideko (Min-hee Kim) é uma órfã japonesa prisioneira numa relação inquietante com Kouzuki (Jin-woong Jo) um coreano que se casou com uma tia dela para ascender socialmente e usufruir do dinheiro da herdeira para dar azo à sua derradeira paixão: a literatura. A fortuna da jovem japonesa capta as atenções de um vigarista que se apresenta como um Conde Fujiwara (Jung-woo Ha) tomado de ardores de amor e paixão, herói que a irá resgatar da clausura. Para tal, ele capta a ajuda da pequena ladra Sok-hee (Tae-ri Kim), uma servente que deverá influenciar e colocar Hideko no caminho do sedutor.
Um plano que parecia simples complexifica-se quando Hideko e Sook-hee forjam uma forte ligação. Elas são mais iguais do que seria expectável. Presas às circunstâncias do nascimento, elas parecem fadadas à impossibilidade de escapar aos destinos que lhes foram prescritos há muito, muito tempo. Por dinheiro, ambas são joguetes nas mãos dos homens. Até que surge num plano maquiavélico uma hipótese derradeira de liberdade. As relações entre as personagens são intrincadas e a duplicidade é uma constante. Esta percepção do estado de coisas e das relações entre personagens instala-se pela apresentação de uma narrativa menos comum, divida em capítulos, como se tratasse do livro que lhe deu origem. Cada capítulo é apresentado do ponto de vista das diversas personagens e gera-se mesmo o efeito “Rashômon” até que os motivos são desvelados e confrontados para uma verdade dos “factos” sobressair.

“The Handmaiden” é vastamente superior a muitos equivalentes do género e sim, o recente “Crimson Peak” (2015) vem à mente. As representações do quarteto principal são todas dignas de prémios e a acção move-se devagar, à excepção da última meia hora mas em momento algum se torna insípida como a abordagem de Del Toro. Aqui há beleza à superfície e em profundidade. A cinematografia é esplêndida, o que é aliás comum nos filmes de Park Chan-wook. Existe um forte sentido de transmissão das ideias de clausura física e das barreiras psicológicas que separam as personagens. Sobretudo a relação entre Sook-hee e Hideko é explorada de modo hábil pela câmara curiosa, intrusa, em todos os pequenos momentos, mesmo aqueles em que duas mulheres cúmplices se encontram a brincar aos vestidos. Momentos de comédia transitam para outros de elevada tensão com uma fluidez natural. Por outro lado, existem ainda pequenos momentos de homenagem e referência a trabalhos anteriores, designadamente, uma cena de tortura reminiscente do segmento “Cut” em “Three Extremes” e “Oldboy”. “The Handmaiden” é ainda um thriller erótico com cenas capazes de fazer corar o cinéfilo mais liberal. A despeito do cuidado na direção destas sequências estas prolongam-se sem necessidade, fazendo com que a película perca o ritmo, ou quebre mesmo alguma tensão que lhe antecedeu. Talvez seja este o mal menor num filme onde as personagens são tão violentadas que algo que se assemelhe a um breve momento de prazer saiba a uma pequena recompensa. Quatro estrelas.

Realização: Chan-wook Park
Argumento: Seo-kyeong Jeong e Chan-wook Park
Min-hee Kim como Hideko
Tae-ri Kim como Sook-Hee
Jung-woo Ha como Conde Fujiwara
Jin-woong Jo como Tio Kouzuki
Hae-suk Kim como Miss Sasaki
So-ri Moon como Tia de Hideko

Próximo Filme: "House" (Hausu, 1977)

domingo, 5 de fevereiro de 2017

"The Autopsy of Jane Doe" (2016)


Dois Homens, um cadáver. Podia ter saído de um daqueles vídeos esquisitos que circulam por aí mas revela-se afinal uma das películas de terror mais competentes de 2016. Uma morgue, cadáveres engavetados, uma família a recuperar ainda de uma tragédia pessoal e o corpo de uma jovem cuja mera existência é um anacronismo é tudo quanto basta para uma das experiências mais marcantes do género do ano.

Tommy (Brian Cox) e Austin Tilden (Emile Hirsch) são a dupla de pai e filho médicos-legistas, mais competentes do ramo. Tommy vive para o trabalho. Pouco existe que ele não tenha visto e têm ainda bastantes truques para ensinar ao talentoso filho. Já Austin é um apaixonado pelo “negócio” de família mas não se quer deixar consumir por ele. Pensa numa vida além da morgue e esta encontra-se em Emma (Ophelia Lovibond). Mas enquanto não encontra coragem para deixar o desgostoso pai aprender a lidar com as agruras da vida, dedica-se aos mistérios do corpo. Eles encontram o maior de todos em “Jane Doe” (Olwen Catherine Kelly), o cadáver de jovem desconhecida, encontrado pelo familiar Xerife Sheldon (Michael McElhatton) na cena de um massacre que envolve várias caras conhecidas da região.

O prazo é apertado. Numa noite terão de descobrir a causa da morte da desconhecida e a sua ligação às outras mortes mas em como tudo o resto em Jane, ela é um elemento estranho. Tudo na sua presença indica não se encaixar na sequência de eventos. O corpo não aparenta sinais de violência ou… de qualquer outra coisa na verdade. De que é que morreu a desconhecida?
“The Autopsy of Jane Doe” pertence à ainda curta carreira de André Ovredal, realizador norueguês que se notabilizou com uma das raras boas incursões no género de found footage (“Blair Witch” é uma treta cof, cof) com “Trollhunter” que ademais foi beber à própria mitologia do seu país. No entanto, ninguém o pode acusar de amadorismo. “The Autopsy of Jane Doe” parece um dos melhores episódios de "CSI" com uns resquícios de “Six Feet Under” em formato longa-metragem. É impossível não ficar absorvido pela dupla Cox/Hirsch enquanto esta retalha o corpo de Jane, ao mesmo tempo que levanta as hipóteses mais fantásticas e pavorosas. A abordagem fria e clínica da dupla não afugenta, antes torna as actuações mais realistas. Por seu turno, sem dizer nada, a linda e misteriosa Jane Doe marca o tom cada vez mais sinistro do filme. Sem nada dizer ou mover-se – o cadáver! –, comanda o filme. Um excelente exercício de body horror, mas sem o sensacionalismo de outros. A empurrar a narrativa está a sua investigação. A cada novo indício do que poderá ter sucedido, surge uma nova pista desconcertante para o ultra experiente Tommy e o mais novo mas não menos perspicaz Austin. Entretanto, começam a suceder episódios insólitos na cave onde se encontram e que parecem querer indicar que os factos são bem mais complexos e perversos do que se podia à partida supor. Na verdade o contínuo enfoque em Jane Doe traz mais perguntas que respostas. Este enfase não é voyeurista. Pelo menos não numa perspectiva sexual, a despeito de Jane ser belíssima. A obsessão é clínica, como a de um médico que procura de modo furioso descobrir a causa da maleita de um seu doente. A dada altura “Jane Doe” muda para uma direção não totalmente inesperada mas porventura desnecessária, ainda assim competente. No entanto, se o espectador decide prosseguir com o visionamento confiante ou ficar indignado esta é uma decisão subjectiva. Brian Cox e Emile Hirsch continuam tão convincentes, enquanto mentes inquisitivas e na relação de pai e filho, enquanto o mundo à sua volta ameaça ruir.  A despeito de na última metade de “The Autopsy of Jane Doe” existir uma mudança precipitada de direção, a primeira parte é tão impactante que não é possível não permanecer fascinado por este novo estranho monstro recriado por Ovredal. Quatro estrelas.
Realização: André Øvredal
Argumento: Ian B. Goldberg e Richard Naing
Emile Hirsch como Austin Tilden
Brian Cox como Tommy Tilden
Ophelia Lovibond como Emma
Michael McElhatton como Xerife Sheldon
Olwen Catherine Kelly como Jane Doe
Jane Perry como Tenente Wade

Próximo Filme: "The Handmaiden (Agassi, 2016)
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