quarta-feira, 24 de agosto de 2016

"Election" (Hak se wui, 2005)


De dois em dois anos a tríade Wo Shing passa por um período de eleições para escolher o seu líder máximo. Acerca-se um novo de período de eleições e os membros seniores da Wo Shing acomodados que estão nas suas regras e rituais não pensam candidatar-se. Também é verdade que não estão mais perto de encontrar um novo líder. É altura de entrar sangue novo e as opiniões dividem-se entre Lok (Simon Yam) e Big D (Tony Leung Ka Fai). Lok é calmo e reservado, dir-se-ia mesmo sonso, não fosse ele um assassino frio e calculista que gostava de analisar todas as jogadas antes de decidir o curso de acção. Big D é o oposto. Espalhafatoso e possuidor de confiança excessiva, ele acredita que estão todos abaixo dele o que gosta de demonstrar por via do sadismo. Se por um lado está disposto a tudo para a Wo Shing triunfar por entre todas as sociedades criminosas e, sobretudo ele, reinar, por outro é a característica que o torna vulnerável a cometer o tipo de erros de impulsividade que costumam granjear muitos inimigos. São tidas reuniões, são feitos subornos e são tidas ainda mais reuniões. Uma decisão é tomada. Mas convém não esquecer um importante pormenor. Os anciões da tríade são organizados mas acima de tudo dão valor à tradição. O vencedor, para se legitimar terá de possuir um bastão centenário que pertenceu aos diversos chefes. Quem o obtiver será reconhecido por todos como o Grande Líder. Desencadeia-se então uma luta entre as facções e os seus seguidores para conseguir o símbolo máximo de poder.

É comum fazer-se uma associação imediata à extrema violência à mera menção da palavra máfia mas “Election” é tão enganador como os seus predecessores. Conduzido com a mão sábia de Johnnie To que tem um vasto currículo no retrato dos estilos de vida à margem da lei, “Election” concentra-se mais nas maquinações das tríades chinesas que na sua brutalidade mesmo que esta quando surja seja marcante. A título de exemplo, um leal lacaio mastiga pedaços de porcelana a mando do chefe…
A maioria do elenco, quase na totalidade do sexo masculino, são homens de meia-idade, práticos e capitalistas. Não fosse a natureza dos assuntos com que lidam e quase se poderia olhar para estes como legítimos homens de negócios. No fundo, tudo é passível de ser transformado num negócio desde que se seja amoral. Com alguns dos meninos bonitos do cinema chinês como Louis Koo (Jimmy) e Nick Cheung (Jet) é de estranhar quão pouco estes são utilizados. Eles ostentam nas poucas cenas em que surgem carisma suficiente para se querer saber mais sobre os seus personagens que se revelam, aliás, os poucos idealistas ou bandidos por vocação num filme onde predomina o cinismo. Entra ainda em acção a força policial, como que para nos fazer recordar quem é que é o bom da fita. Ela está no entanto, condenada a um plano secundário num enredo onde já existem demasiados actores secundários. Talvez fosse mesmo essa a ideia dos argumentistas, demonstrar como estas sociedades são enormes, como existem demasiados intervenientes a considerar e, assim, se torna difícil distingui-los. A película perde talvez o potencial de encanto após abandonar o engenho em detrimento da caça ao homem, ou melhor, ao bastão mítico, altura em que se torna mais convencional. Curiosamente, uma crítica que não se lhe pode apontar e não costuma ser habitual em filmes sobre a máfia (chinesa, italiana ou japonesa) é que é demasiado curto.
Após um período de acalmia, o fim vem rápido e furioso, com os dois melhores actores em cena a comprovar aquilo que já se dizia sobre os seus personagens. Aquele é um negócio sujo e mesmo sobre um clima de calma aparente, os bandidos não conseguem negar a sua natureza. Três estrelas.

Realização: Johnnie To
Argumento: Nai-Hoi Yau e Tin-Shing Yip
Simon Yam como Lok
Tony Ka Fai Leung como Big D
Louis Koo como Jimmy
Nick Cheung como Jet
Ka Tung Lam como Kun
Siu-Fai como Sr. So
Suet Lam como Big Head
Tian-Lin Wang como Uncle Teng
Bing-Man Tam Uncle Cocky
Maggie Siu como Senhora Big D
David Chiang Chefe Superintendente Hui

Próximo filme: "Nightmare Detective" (Akumu Tantei, 2006)

domingo, 17 de julho de 2016

"Kikujiro" (Kikujirô no natsu, 1999)


Foi senhor de um castelo que a cada episódio era alvo de uma invasão (“Takeshi’s Castle”, 1986-1990); um samurai louro e cego que lutava contra a injustiça (“The Blind Swordsman: Zatoichi”, 2003) e um gangster impiedoso num mundo de sucessivas traições (“Outrage”, 2010). O homem dos sete ofícios e mil talentos Takeshi Kitano deve ter encarado “Kikujiro” com naturalidade. Escreveu, realizou e encarnou o personagem (adulto) principal e apresentou, em simultâneo, mais uma personagem diferenciada e no entanto reconhecível para os que conhecem o seu trabalho e que por ele o amam e detestam em igual medida.

Em “Kikujiro” avizinha-se um Verão aborrecido para o pequeno Masao (Yusuke Sekiguchi), uma criança adorável mas socialmente desajeitada, habituada a longos períodos de solidão. O melhor e talvez único amigo, irá passar o Verão fora com os pais e Masao não tem com quem brincar. Também os treinos de basebol estão suspensos até ao início da escola. Ele vive apenas com a avó, mas nem esta lhe pode valer já que trabalha durante o dia, deixando-lhe as refeições preparadas para as horas em que não está em casa. Um dia encontra por acaso uma fotografia da mãe que não vê desde bebé. Temendo a reacção da avó e movido pela curiosidade decide partir sozinho à sua revelia para reencontrar e porventura voltar a viver com a mãe qual conto de fadas. A caminho da “fuga” planeada é interceptado por uma vizinha que se compadece dele e obriga o marido (Takeshi Kitano) a acompanhá-lo. Para o homem é uma oportunidade de passar uns dias sem a mulher mandona e aproveitar para gozar os prazeres da vida em paz. Levar à Masao a conhecer a mãe não faz de todo parte dos seus planos. Para a vizinha, desconfia-se, é apenas uma oportunidade de manter o marido na linha através da imposição de uma criança.
“Kikujiro” retrata as aventuras da criança e de um gangster através do Japão numa busca em torno do sonho inocente de Masao, mais do quea crescente relação de cumplicidade entre os dois. Filmado no estilo descontraído inconfundível de Kitano os acontecimentos sucedem-se com vagar desde a atitude negligente do gangster em cuidar de Masao às tentativas deste para sensibilizar o acompanhante que lhe foi imposto a ajudá-lo a cumprir aquela missão tão pessoal. “Kikujiro” é um trabalho estranho e desequilibrado. O que parece um feel-good movie torna-se afinal numa comédia negra quando se tocam em temas bem adultos como o jogo, vício, roubo, abandono ou a pedofilia. Se bem que não tenho a certeza de que o objectivo de fazer rir tivesse sido alcançado na totalidade. É antes um roadmovie com elementos de tragicomédia, nomeadamente durante uma sequência prolongada em que todos os adultos, ao dispor do pequeno Masao, desdobram-se em jogos de crianças para o animar. Como se a brincadeira o reparasse pelas experiências traumáticas porque passou durante a viagem. Se os jogos são giros, acho difícil quem quer que seja negá-lo, tenho todas as duvidas de que este momento devesse constar no filme, pelo menos de modo prolongado como se apresenta. Cinco minutos a menos não lhe fariam mal. A magia dos adultos que tentam fazer uma criança rir também acaba por ser manchada pelo facto de dois deles sofrerem de bullying por parte do gangster para se sujeitarem a tais comportamentos. Se este é um filme sobre o valor da amizade que pretende de algum modo indicar que se consegue encontrar alegria nos momentos mais negros, a verdade é que algumas atitudes do gangster são mesmo muito questionáveis em termos morais. Desde comportamentos desadequados para se ter à frente de uma criança, a usá-lo para a concretização de expedientes criminosos, vale tudo. Como apoiar alguém cuja moral inclui a despreocupação com o bem-estar de terceiros? A própria criança é influenciada de modo negativo pelo gangster a despeito de se tornar cada vez mais assertivo a cada novo desafio. Irrepreensível só mesmo Joe Hisaishi, o grande mestre das composições musicais para o cinema de animação mas não só que lhe confere uma aura refrescante ainda que “Kikujiro” seja tudo menos light. Se a composição de Hisaishi não vos comover são uns bastardos sem coração. Apesar de tudo, não seria má ideia Kitano passar mais tempo a ver comédias e filmes de animação. Esteve quase lá. Duas estrelas e meia.


Realização: Takeshi Kitano
Argumento: Takeshi Kitano
Takeshi Kitano como Kikujiro 
Yusuke Sekiguchi como Masao
Kayoko Kishimoto como Mulher do Kikujiro

Próximo Filme: "Election" (Akumu Tantei, 2006)

segunda-feira, 13 de junho de 2016

“MONSTRA – A colheita de 2016” – FIM


“When Marnie was There” ou como o estúdio Ghibli ter anunciado que esta seria a sua última longa de animação anulou o facto de esta ser uma obra inferior ao que os fãs do estúdio estão habituados. Sim, eu acabei de admitir que “Marnie” é uma obra menor do estúdio Ghibli. Deixem a informação assentar. Confesso-me culpada de suspeitar que o próprio estúdio sabia que esta longa deixava algo a desejar e que o anúncio do fim do Ghibli como o conhecemos terá sido avançado para precipitar bons resultados de bilheteira, bem como fazer desvanecer quaisquer dúvidas levantadas pelas primeiras críticas. Esta notícia não será inteiramente surpreendentemente se pensarmos que o realizador Hiromasa Yonebayashi é o realizador de uma das obras menos fortes do estúdio: “The Secret World of Arriety” (2014).


É certo que “When Marnie was There” foi vencedor do Grande Prémio MONSTRA e que foi nomeado para o Óscar de melhor filme animado na 88ª Edição do certame mas, se por esta altura ainda sentem vontade de discutir porque é que um filme nomeado para os Óscares é muito bom, não tenho tempo nem energia para dissertar as vossas fantasias. Mesmo na MONSTRA foi aparente que o filme não foi consensual, não tendo reunido os Prémios do Público (April and the Extraordinary World), Melhor Filme para a Infância e Juventude (“Phantom Boy”) ou o Prémio Especial do Júri (“Little from the Fish Shop”).

“When Marnie was There” é mais uma estória sobre as dores do crescimento mas sem a magia a que Ghibli já nos tinha habituado. Anna Sasaki (Sara Takatsuki) é uma pré-adolescente demasiado consciente de que é diferente dos seus pares. Ela tem olhos azuis, raros entre a população japonesa, que não consegue explicar pois nunca conheceu os pais biológicos e o casal adoptivo que a cria não se mostra receptivo a contar-lhe a sua história. Sentido perante a sua situação um desconforto latente cada vez mais intolerável Anna começa a sentir uma cisão entre ela e a mãe adoptiva Yoriko que apenas aumenta quando descobre que o casal recebe dinheiro para a criar. Jovem demais para compreender os contornos da situação sente que não é amada. Ela fora apenas um bebé estranho, vendido para que outros criassem. A saúde débil e a súbita revelação levam-na a ter um ataque de asma e a mãe, preocupada, decide enviá-la para o campo para recuperar. Lá depara-se com gentes acolhedoras e um cenário bucólico marcado por uma mansão gigante delapidada que exerce uma atracção estranha sobre ela. A curiosidade de Anna empurra-a para mansão onde conhece Marnie (Kasumi Arimura) uma jovem de aspecto estrangeiro e com a mesma idade que rapidamente se torna a sua melhor amiga e confidente.


Com pouco mais de 100 minutos “When Marnie was There” mais parecem duas horas de eventos mal distribuídos e pouco ou nada explicados. Se películas anteriores eram com mais clareza juvenis, desde a “The Tale of the Princess Kaguya” (2013) e “The Wind Rises” (2013) que o estúdio se tem orientado para faixas etárias mais maduras. “Marnie” não é excepção. A pequenada exposta a esta animação arrisca-se a apanhar um aborrecimento de morte, enquanto os adultos vão ser deixados a apanhar pedacinhos de pistas para compreender uma estória que ora não desenvolve ora avança a uma velocidade vertiginosa. Os avanços e recuos seriam desnecessários se não fosse perdida mais de uma hora em acontecimentos quase triviais. Também parece existir uma brincadeira com as memórias e percepções de Anna que não são concretizadas da melhor forma. Marnie apenas interage com Anna mas esta não se importa ou questiona os súbitos aparecimentos e desaparecimentos desta, tal é o frágil estado emocional. Anna só quer pertencer a algum lado e nenhum outro se sente tão segura como quando está com Marnie. No entanto, esta pode não se encontrar no mesmo plano que ela, tornando-se até perigoso para Anna quando esta descura a sua própria segurança para estar com a nova amiga. Mas até esta, vem Anna a descobrir tem uma vida trágica que a leva a reflectir não só sobre o que não possui como o que de facto tem. “When Marnie was there” afigura-se uma aposta arriscada mas acaba por gorar as expectativas iniciais trilhando caminhos familiares e inofensivos até. “Marnie” não é a película mais espectacular do estúdio em termos de desenho, ainda que seja bastante competente. O problema é que esta animação parece querer afirmar de forma convicta a tradição por oposição a demonstrar Ghibli podia e iria adaptar-se aos tempos de mudança. É portanto, sintoma e efeito. Três estrelas e meia.

Próximo Filme: "Kikujiro" (Kikujirô no natsu, 2013)

domingo, 8 de maio de 2016

“MONSTRA – A colheita de 2016” – Parte 2

"Kahlil Gibran's The Prophet" (2014)

Baseado na obra literária que lhe dá o título, "Kahlil Gibran's The Prophet" assemelha-se bastante à leitura de um livro. Com uma narrativa principal, intermediada em capítulos, cada um entregue a um estilo de animação próprio, à medida que o Poeta Mustafá (Liam Neeson) reflecte sobre temas como a liberdade, o amor, ou a morte - ele que foi preso, precisamente por pensar em voz alta e na sua condição de Homem livre. Os seus cárceres temem que as suas palavras contaminem o povo e o levem a questionar. E como bem está inscrito a sangue na História da Humanidade, o conhecimento leva o questionamento e este pode ser incómodo para os governantes. Estes temem pois uma sublevação e conduzem-no, através da cidade para o que será a morte do Homem e das ideias. Cabe pois, à pequena e travessa Almitra (Quvenzhané Wallis) que não profere palavras e apenas parece comunicar com uma gaivota, para desespero da mãe Kamila (Salma Hayek), lutar para salvar Mustafá de tal destino trágico.
Ondas de enlevo, tédio e indiferença sucedem-se à medida que surge uma nova interpretação para a animação e enredam-nos numa mescla em permanente metamorfose que não permite as palavras respirar e ser interiorizadas como talvez o próprio escritor pretendesse. Isto, a despeito de alguns momentos bastantes fortes em termos do talento patente na animação. A animação prolonga-se por vezes em demasia e até à divagação, como alunos numa palestra interminável. Ao tentar produzir animação à altura das palavras do poeta, acaba por se dar a primazia à imagem em detrimento do argumento, sendo que este podia e devia ter sido alvo de maior cuidado de edição. Disto resulta um filme longo e incongruente, como se as peças tivessem sido criadas, cada qual no seu tempo e espaço, sem uma linha orientadora comum. Faz recordar o pecado original de muitas antologias que se dizem possuir um tema em comum e depois surgem desconexas. As peças elevam-se sobre o todo. Potencial desperdiçado. Três estrelas.

PS: Confesso que não me foi alheio o facto de “The Prophet” ter sido exibido dobrado em língua portuguesa. Não desfazendo, da minha língua materna, não há como não apreciar as dobragens originais sobretudo quando estas incluem o Liam Neeson.

“Avril et le monde truqué” (2015)


Um universo distópico de inspiração steampunk faz uma aparição em “Avril et le monde truqué”. Separada dos pais em criança, Avril (Marion Cotillard), torna-se uma cientista à semelhança destes. Acompanhada por Darwin Phillipe Katerine), o seu fiel gato falante, tenta desenvolver uma fórmula que torne os seres humanos imunes a quaisquer doenças, num período em que os cientistas têm vindo a desaparecer de forma misteriosa. Nesta Paris alternativa, existe não uma, mas duas torres Eiffel e grande parte da cidade movimenta-se através do teleférico, embalada pelo fumo da poluição problema tão premente nos dias de hoje na realidade como neste universo ficcional. Avril é uma heroína essencialmente inocente, mas optimista e determinada. As suas acções não são motivadas ou redefinidas por um qualquer motivo romântico. Apesar de uma óbvia e forte ligação à família ela tem menos de calma e recatada do que de determinada e destemida. Uma heroína do século XXI inserida num contexto industrial alternativo, algures pelos anos 40 e cujas aventuras fariam um Júlio Verne orgulhoso. “Avril et le monde truqué” terá muitas referências que vão desde a animação mais tradicional à banda-sonora mas tem uma identidade muito própria. A tal não é alheio o trabalho de Jacques Tardi, autor mais conhecido pelo trabalho em banda-desenhada, nomeadamente, “Les Aventures extraordinaires d'Adèle Blanc-Sec” e que passou não há muito tempo pelas salas de cinema, em versão live action. A estória é tão interessante na sua incursão pelos caminhos da ficção científica não excessivamente complicada como pelos personagens, com a devida nota de apreço ao gato Darwin. Três estrelas e meia.


quarta-feira, 13 de abril de 2016

“MONSTRA – A colheita de 2016” – Parte 1


Comecemos pelo momento de honestidade refrescante. Este ano não foi o mais profícuo em número de visionamentos da MONSTRA. Da parte competitiva calhou-me em sorte “The Boy and the Beast” (2015), “Kahlil Gibran’s The Prophet” (2014), “April and the Extraordinary World” (2014), “When Marnie was There” (2015), tendo-me sobrado “apenas” tempo para o Grande, Icónico, Inesquecível, Filme de Animação de uma Vida, “Spirited Away” (2001). Nota-se muito que o “Spirited Away” é um dos meus filmes de animação preferidos?! Por outro lado, os filmes que *vi alternaram entre o razoável e o muito bom, o que torna o balanço da edição de 2016 da MONSTRA, muito positivo.

“The Boy and the Beast” (2015)

Se poucos questionavam que Mamoru Hosoda era um dos melhores do cinema de animação japonês da atualidade, “The Boy and Beast” pouco fez para desmistificar essa ideia. Ren/Kyuta (Aoi Miyazaki/Shota Sometani) é um jovem revoltado com a perda da mãe e ausência do pai, que decide fugir de casa, de uma família estranha que mal conhece e entra num mundo novo sobrenatural. Porventura por ser tão peculiar quanto o mundo de deuses animais onde penetrou, acaba por aceitá-los com naturalidade, como se esse tivesse o seu lar desde sempre. Por sorte do Destino, Ren torna-se o filho adoptivo e discípulo de Kumatetsu (Koji Yakusho), uma besta que bem domina as Artes Marciais mas não o feitio difícil que o impede de concretizar o seu potencial máximo como Deus daquele lugar. Este par improvável acaba por crescer conjuntamente e melhorar com o tempo e Ren, agora Kyuta, quase esquece o mundo real, até que percebe que tem assuntos inacabados por resolver no outro lado. Esta obra não se desvia muito da obra anterior do realizador. Hosoda continua a preferir temas em torno das dores do crescimento e dos afectos, dos obstáculos a ultrapassar para realizar o potencial como ser humano e dos erros que se cometem no processo, como já abordado em “The Girl who Leapt Through Time” (2006) ou “Wolf Children” (2012). Tantos temas que às vezes nos perdemos no turbilhão de estórias que acompanham a narrativa principal. Se estas pouco fazem para a enriquecer, constituem mais momentos para a animação irrepreensível brilhar. A batalha final em particular fará as delícias dos que ainda ficam estrelinhas nos olhos, como se de crianças se tratassem. Uma vitória nos dias que correm, em que se questiona a capacidade das novas longas de animação de fazer sorrir ou profundamente comover. “The Boy and the Beast” é similar às obras anteriores de Hosoda, acessível a mais jovens mas sem alienar adultos, somente em dose superior. Podia por isso ser facilmente dividido em episódios e transposto para o pequeno ecrã. E se peca por excesso de ambição, seria um princípio de MONSTRA em grande.




*PS: Vi o “When Marnie Was There”, extra-festival.

Próximo: MONSTRA - A colheita de 2016 - Parte 2

domingo, 20 de março de 2016

"Teke-Teke" (2009)


Kana (Yuko Oshima) é uma estudante que acabou de perder a melhor amiga de uma forma brutal. Ela foi assassinada, tendo sido encontrada desmembrada. A sua morte impressiona Kana de tal modo que a instiga a investigar mais sobre o caso. Ela depara-se com o mito-urbano “Teke-Teke”, sobre uma mulher que teve uma morte muito violenta, ao cair para os carris de comboio e foi atropelada por um comboio que partiu o seu corpo em dois. Agora ela assombra as estações ferroviárias procurando fazer dos passageiros e transeuntes incautos as próximas vítimas da sua fúria cruel. O mito não só parecer encaixar-se na perfeição no modo como a amiga faleceu como se pega a Kana que se começa a sentir acossada. Se o mito for verdadeiro, Kana deverá decidir como agir com rapidez, pois que diz que quem trava conhecimento com a estória irá morrer dentro de três dias…

Se “Teke-Teke” faz recordar algo saído da escola de cinema de terror cabeludo de início do milénio, com o slogan imediatamente reconhecível “irás morrer em sete dias”, à cabeça não é por acaso. É aliás tão similar que se não soubesse diria ter sido realizado em 1998. Koji Shiraishi continua a ser recordado pelo seu “The Curse” de 2005, um dos melhores exemplos do subgénero do found footage antes deste se tornar particularmente intragável e irritante e por “Carved”, uma deambulação anterior por terrenos dos mitos urbanos. Com “Teke-teke” dá um passo atrás e vai buscar o que há, em simultâneo, de melhor e de pior no género de terror. “Teke-Teke” é um telefilme inspirado numa lenda local que vai buscar o retrato já tradicional da mulher como um ser monstruoso capaz de devorar e destruir tudo à sua volta, mesmo que não tenha um motivo grave para tal. Se não tiverem por hábito assistir a terror do sudeste asiático e/ou japonês, esta interpretação pode revelar-se interessante. Se este tipo de filmes forem tão óbvios para vós como respirar digamos que a ideia da mulher malévola é muito “fim de milénio”. Já era hora de a figura “mulher” deixar de ser percepcionada como rancorosa, vingativa ou odiosa mas parece que procurar novas soluções de vilões é como pedir ao cinema de terror japonês para se regenerar. Tarefa árdua.
Uma (!) das boas notícias é que “Teke-Teke” não fica o tempo suficiente para uma pessoa se cansar. São apenas cerca de 70 minutos de drama adolescente intermediado por ataques e perseguições. A equipa técnica percebeu que outro dos pontos positivos era a imagem forte do monstro, no entanto, a repetição desta aparição vezes demais porventura devida a limitações de orçamento, estraga o efeito que seria desejado. O maior foco de interesse de “Teke-Teke” constitui a própria lenda pelo que é muito estranha a decisão de a expôr ostensivamente no trailer. Ainda mais estranho se pensarmos que a lenda é conhecida pelo público japonês. O elemento surpresa não existe e se pensarmos nos parcos momentos de acção, pouco mais existe que a exibição de cadáveres. O factor medo talvez resida apenas nas mentes dos mais impressionáveis que não sofrem da dessensibilização advinda de anos a fio de sobre-exposição ao terror tão característico deste país. Restam actrizes jovens e bonitas que só ali estão pela popularidade pré-existente e pretendem demonstrar que possuem talento além dos atributos físicos e personalidades espirituosas que as colocaram no filme. A película necessita delas para atrair telespectadores e, ao mesmo tempo, elas utilizam este pequeno filme de terror, de um especialista é certo, como rampa de lançamento para uma carreira mais “séria”. “Teke-Teke” não é muito mais do que um conceito interessante produzido para consumo rápido e descartado como a tendência da semana. Dá para acreditar que até fizeram uma sequela? Duas estrelas.

Realização: Kôji Shiraishi
Argumento: Takeki Akimoto
Yuko Oshima as Kana Ōhashi
Mami Yamasaki as Rie Hirayama


domingo, 28 de fevereiro de 2016

"The Invitation" (2015)


“The Invitation” foi o último filme a ser exibido numa edição do MOTELx de 2015 que tinha sido pouco mais que morna. “Assassination Classroom” foi a adaptação de mangá divertida que não comprometeu, “We are still Here” fez as delícias dos fãs de um estilo retro e pouco mais houve que ficasse na retina. Eis que surgiu “The Invitation”, uma daquelas películas que surgem assim de mansinho, ninguém dá por elas e acabam por roubar o Show. Wow!

“The Invitation” faz o mesmo pelos jantares de amigos no género de thriller, o que “Coherence” fez em 2013, em Ficção Científica. Posto isto, não morrendo de amores por esta última obra que atua em formato “lume brando” até a um clímax inesperado, “The Invitation” não convidará muito ao visionamento.

Will (Logan Marshall-Green) e Kira (Emayatzy Corinealdi) dirigem-se para um jantar de amigos, quando sucede o inesperado. Eles atropelam um animal e Will acaba por ter de tomar uma decisão difícil. Com isto em mente, uma noite que já se adivinhava tensa torna-se ainda mais enervante. É a primeira vez que Will se reencontra com a ex-mulher Eden (Tammy Blanchard), 2 anos depois de um acontecimento penoso que transformou as suas vidas para sempre. Tanto Will como Eden prosseguiram as suas vidas românticas e o inesperado e estranho convite de Eden faz pensar que o Encontro servirá, em simultâneo, para sarar feridas e enterrar o machado de guerra. Eden reuniu os velhos amigos do casal para um jantar com o seu novo companheiro, o calculista David (Michiel Huisman) e a provocadora Sadie (Lindsey Burdge) cuja aparência parece gritar “vítima” de todos os ângulos. Os amigos parecem aceitar, pelo menos durante algum tempo, a explicação de Eden para a reunião após tantos anos sem se verem. Houve um acontecimento horrendo que precipitou o fim do casamento de Will e Eden, o casal perfeito e o consequente afastamento dos amigos. Eles aceitam com hesitação a renovada e sofisticada Eden, à excepção de Will. Ele conhecia-a, ele foi marido dela e aquela, simplesmente não é a querida e vulnerável Eden de quem se separou. Se calhar ele é que se perdeu na dor e na bebida, porque só ele consegue ver algo de muito estranho na atitude dela, de David, de Sadie e, mais tarde, na imponente e ameaçadora figura de Pruitt (John Carroll Lynch), o amigo que ninguém conhece.

“The Invitation” sobretudo da paranóia de Will. Já alguma vez experimentaram a sensação de estar num grupo e sentir que apenas vocês estão certos e, até podem, de facto, estar certos, mas ninguém acredita em vocês? O problema que se coloca perante Will e constitui a maior fonte de interesse para a audiência é que não se sabe se ele tem razão ou se estará apenas a imaginar coisas. “The Invitation” é um jogo de percepção que mantém o equilíbrio a todo o momento. Will tem mesmo motivo para achar que há algo de muito errado naquele jantar? Não serão as suas desconfianças apenas delírios de um louco? De cada vez que tomamos uma decisão relativamente à pespectiva certeira, surge nova pista para nos fazer mudar de ideias. “The Invitation” sucede devagar mas seguro, claustrofóbico, à medida que os convivas transitam entre as divisões da casa, comendo e bebendo, as personalidades mais desinibidas e a conversa começa a tocar nas feridas abertas. Os convivas agem como um grupo de amigos normal, com personalidades bem definidas e as suas “cliques”, de espírito aberto mas reserva suficiente para não ferir susceptibilidades, até à descontracção ou a agressão latentes se tornarem manifestas. Muitos destes estados de alma podem ser observados sem quaisquer palavras, através da paralinguística, tal como aqueles jantares desconfortáveis em que somos obrigados a participar umas poucas vezes na vida. “The Invitation” não é sobre o desenlace que apenas a poucos minutos do clímax se torna óbvio mas, sobre o caminho percorrido. Logan Marshall-Green assemelha-se a um Tom Hardy sombrio em versão indie, com excelentes resultados. A sua dor, desconfiança, paranóia e o instinto de sobrevivência, reunidos sob uma aparente calma contida, são um gosto de observar. De igual modo, John Carroll Lynch é a prova viva de como um actor secundário pode roubar a atenção das “estrelas” através de um brilhante e perturbadora interpretação… “The Invitation” não vai além do terreno da casa onde decorre o jantar de amigos mas não precisa de muito espectáculo para ser inquietante. Muito depois de terminar ficará num recanto da mente, a fervilhar. É fogo que arde sem se ver e esse é talvez o maior elogio que se lhe pode fazer. Quatro estrelas.

Realização: Kary Kusama
Argumento: Phil Hay e Matt Manfredi
Logan Marshall-Green como Will
Tammy Blanchard como Eden
Michiel Huisman como David
John Carroll Lynch como Pruitt
Emayatzy Corinealdi como Kira
Toby Huss como Dr. Joseph
Mike Doyle como Tommy
Michelle Krusiec como Gina
Karl Yune como Choi
Lindsay Burdge como Sadie
Marieh Delfino como Claire
Aiden Lovekamp como Ty
Jordi Vilasuso como Miguel
Danielle Camastra como Annie
Jay Larson como Ben

Próximo Filme: "Teketeke" (2009)

domingo, 21 de fevereiro de 2016

Março é Mês de Monstra


Diz que a Monstra - Festival de Animação de Lisboa está aí a rebentar e eu sou uma pessoa para não me deixar ficar (por casa). De 03 a 13 de Março, Lisboa (e não só) vão estar mais animados.  Em 2016 estamos em 32 salas, 61 escolas, 12 universidades. Vamos levar a MONSTRA e a MONSTRINHA a 10 cidades de Portugal e a mais duas dezenas nos cinco continentes. De Timor a Brasília, de Arras a Buenos Aires, de Berlim a São Paulo, de Maputo a Viena. Realizámos a quinta edição da MONSTRA em França. De 300 espectadores em 2002, ultrapassámos os 5.500 em 2016. São muitos números estão a ver? E este ano, a Monstra além da sempre interessante competição de longas-metragens, explora os lados dos inesperados balcãs. Mas independentemente disso, um dos meus filmes preferidos de sempre, quiçá, o mais-melhor-preferido "Spirited Away" (A Viagem de Chihiro) vai ser exibido na Secção "Históricos". Ouvem isto? É o som da criancinha que mora dentro de vós a rogar para que visitem a Monstra. Encontramo-nos .
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