Domingo, 19 de Maio de 2013

"Ghost Sweepers" (Jeomjaengyideul, 2012)


Uljin é uma pequena localidade piscatória coreana que podia passar despercebida se não se desse o caso de ter um número de casualidades terrivelmente elevado. O poder local, convencido que a origem do mal tem origem em forças malévolas sobrenaturais, convida shamans de todo o país ao local para expurgar o mal que constitui um empecilho para o desenvolvimento da região. O que os shamans encontram é um verdadeiro fenómeno sobrenatural de vasto espectro, o sonho de uma vida para um amante das ciências do oculto. Ou talvez não. A maioria decide, como muitos outros antes deles desertar, mesmo que lhes seja oferecida riqueza para toda a vida. É o momento é que se separam os aldrabões dos profissionais… Sobram seis. O famoso professor Park (Soo-ro Kim), especialista em exorcismos; Shim-in (Do-won Kwak) que se afastou da fama para uma existência mais obscura; Suk-hyun (Je-hoon Lee), um engenheiro que acredita identificar espectros mediante a utilização da ciência; Wol-kwang (Kyung-mo Yang), um adolescente com a capacidade de prever o futuro; Seung-hee (Yoon-hye Kim) uma taróloga com a capacidade de ver as memórias “guardadas” nos objectos e Chan-young (Ye-won Kang), uma jornalista movida por motivos pessoais. Uma festa certo?

“Ghost Sweepers” não faz nenhuma tentativa de esconder os seus objectivos: estremecer nalgumas partes e rir a bandeiras despregadas noutras. Numa delas falha espetacularmente. Querem adivinhar?
Toda a construção da narrativa assenta na introdução aos personagens, cada uma distintiva. O guarda-roupa ajuda a esse trabalho mas as personalidades transparecem como, por exemplo o professor algures entre o ocultista dividido entre a nobre profissão e o estrelato, o engenheiro que pretende validar a existência de vida além-morte através do método científico mas se revela um homem frágil ou a jornalista com um exterior mais forte do que os óculos de massa grossa deixam antever. Por desenvolver ficam o monge Shim-in que possui um “terceiro olho” que lhe permite ver mais do que os colegas ou a taróloga giríssima mas perigosa. É difícil decifrar o que terá passado pela cabeça do argumentista Seong-hwi Kwon para deixar à margem duas das personagens com maior potencial. Como é possível descartar a capacidade de visão de fantasmas ou não explorar o facto de uma mulher atraente optar por um caminho solitário e com pouca credibilidade. Outra aposta fraca de caracterização é o traje jornalístico de Chan-young e os óculos da praxe. Será assim tão complicado marcar uma personagem na mente das audiências e conferir-lhe autenticidade sem a “vestir” como tal?
Ou o guarda-roupa é um engodo para esconder outras fraquezas de construção da personagem? Seria de pensar que teriam maior confiança numa actriz que entrou em filmes como “Hello Ghost” e “Tidal Wave”… Mas nem tudo são percalços. Os momentos de comédia, sobretudo os que assentam na inversão de papéis entre Suk-hyun e Chan-young são uma delícia. Ele como homem frágil e ela uma mulher mais dura que o exterior deixa ver. A transição para os momentos mais sérios é o que destrói a leveza que tinha sido conquistada com uma série de gags refrescantes. E depois apresentam tantas estórias secundárias que a dada altura percebemos que "Ghost Sweepers" não é nada o filme de amigalhaços shamans que nos quiseram vender. Porque é que nos fazem apaixonar por um filme e depois decidem que afinal não era o que pretendiam? “É um filme de terror! Ah e tal desculpem!” A sério Coreia?! A transição entre comédia e terror ou comédia e drama é um acto de equilibrismo que muito poucos conseguem atingir, vide “Hello Ghost”. Não é com certeza o realizador do “Chaw” (Javali gigante assassino) que vai conseguir acertar na fórmula. Fiquem-se pelo que sabem e fazem bem. Duas estrelas.

Realização: Jeong-won Shin
Argumento: Seong-hwi Kwon
Soo-ro Kim como professor Park
Do-won Kwak como Shim-in
Je-hoon Lee como Suk-hyun
Ye-won Kang como Chan-young
Kyung-mo Yang como Wol-kwang
Yoon-hye Kim como Seung-hee


Próximo Filme: "Paranormal Activity 2: Tokyo Night" (Paranomaru akutibiti: Dai-to-shô - Tokyo Night, 2010)

Domingo, 12 de Maio de 2013

"The Unseeable" (Pen choo kab pee, 2006)




Chega uma altura na carreira de um cineasta tailandês em que ele tem de escolher difícil. Continuar a fazer os filmes que deseja fazer ou apostar num filme de terror para conseguir financiar projectos futuros. Atualmente Pee Mak Phrakanong (Pee significa fantasma), uma comédia de terror ou terror cómico, se preferirem, é o segundo filme mais visto de sempre do cinema tailandês. E a presença de filmes de terror tailandeses no top dos filmes mais vistos de sempre não é um acaso. Já antes, filmes como “Mae Nak”, “Dorm” ou “Shutter” tinham feito as delícias das audiências locais, recolhendo aclamação crítica internacional. Em comum? Realizadores cujo currículo se estende além do género que os deu a conhecer e captou todo o tipo de apoios futuros. “The Unseeable” é um desses infelizes acasos. Wisit Sasanatieng teve de baixar bastante o tom dos filmes anteriores, “Tears of the Black Tiger” e “Citizen Dog”, cuja utilização de cores saturadas podia ser apelidada de sonho Tecnicolor. Isso ou melhor da pop art de Andy Warhol, em especial a evocação do glamour de Hollywood dos anos 30. Com menores recursos e um argumento que não o seu basta dizer que a estória foi escrita por um dos membros da “Equipa Ronin” Kongkiat Khomsiri, que escreveu a tão popular série de filmes “Art of the Devil” e, mais recentemente, o desastroso “Dark Flight 407”. Só filmes de terror denotam um padrão?
A narrativa acompanha Nualjan (Siraphan Wattanajinda), uma rapariga do campo que se apaixona violentamente por um músico que surge na pequena localidade de Cholburi. Ele corteja-a e acabam por casar. Mas ele é um músico e terá de partir por uns dias em trabalho. Nunca mais retorna e uma Nualjan grávida decide procurá-lo. Eis que chega a uma antiga casa senhorial que parece parada no tempo. Entre estórias de terror contadas por uma empregada estranha, uma governanta digna de uma Mrs. Danvers da literatura, um homem que apenas cava buracos sob o olhar atento da lua e uma viúva amarga presa nos bons velhos tempos que não deseja abandonar os aposentos qual rainha de um castelo, o local não parece o ideal para uma grávida em final de termo. Ainda assim, onde é que ela pernoita?
Note-se que ela nem coloca a hipótese do marido estar morto ou de ter fugido para escapar às suas responsabilidades maritais. Pobre inocente. A ação decorre nos anos 30, um dos últimos redutos do realizador de "Tears of the Black Tiger", sendo que um dos poucos pormenores de interesse são a luta de classes. Os mais pobres têm tez mais escura e menos educação. Falta-lhes toda uma maneira de ser e de estar, acentuada por uma pele branca e leitosa qual marca de nascimento que só os da alta possuem, a crer no conservadorismo da época. Talvez por isso, os personagens de um nível inferior da sociedade surjam infinitamente mais acolhedores, "humanos" e, de certo modo, inocentes.
“The Unseeable” é um conjunto de acontecimentos que se vêm a milhas, a começar pelo título. O que aconteceu ao mistério? Ao suspense? Ao ficar nos píncaros? A roer as unhas? A esconder a face atrás das mãos? Nãooooooooo… embora dar um titulo óbvio e um trailer que desvenda os melhores momentos…

Que mania! Se vão mostrar o melhor no trailer é por que há uma tremenda falta de confiança de que conseguem vender o produto. Não. É porque sabem que o produto carece no departamento da qualidade.
Se para os realizadores tailandeses há um momento em que têm de reflectir sobre o caminho a adoptar sob pena de não conseguir fazer mais filmes também existe uma altura em que audiência se questiona se os argumentistas fizeram um pacto secreto sob o qual se comprometem a seguir, com mais ou menos desvios, a mesma narrativa. Primeiro a rapariga do filme vai parar, sabe-se lá por que obra do destino, a um local misterioso. Segundo ela toma a decisão de permanecer no sítio que não inspira assim tanta confiança. Acontece, faz parte dos homens tomar decisões estúpidas. O que não é tão perdoável assim é o que sucede num terceiro momento. A jovem é avisada em diversas ocasiões para não ter certos comportamentos. E o que ela faz é ignorar todos os avisos, quebrar todas as regras. E, em boa verdade, quem é que não sente uma ligeira satisfação pela desgraça que se abate sobre a transgressora? Duas estrelas.

Realização: Wisit Sasanatieng
Argumento: Kongkiat Khomsiri
Siraphan Wattanajinda como Nualjan
Supornthip Choungrangsee como Madame Runjuan
Tassawan Seneewongse como Somchit
Sombatsara Teerasaroch como Choy

Próximo Filme: "Ghost Sweepers" (Jeomjaengyideyl, 2012)

Domingo, 5 de Maio de 2013

TOP Saga “Whispering Corridors” (1998-2009)


Trailer de "Whispering Corridors" (1998)

Duas belas tardes, nos idos de março (notem bem a referência cinematográfica, hã?), muni-me das armas essenciais de qualquer cinéfilo que se preze: chocolate, uma manta, lencinhos renova, que isto nunca se sabe quando a lágrima se forma ao canto do olho e decidi-me a visionar a saga de terror coreano “Whispering Corridors”.

“Whispering Corridors” é um dos primeiros clássicos do final dos anos 90 que contribuíram para a insanidade temporária ao redor do j-horror e k-horror. A saga gerou cinco filmes, o último dos quais estreou apenas há alguns anos (2009) e, provavelmente encerrou um dos capítulos mais famosos do cinema de terror sul-coreano. Impressões: as estudantes de liceu são bastante desenvolvidas em termos de físico (ou isso ou já contratavam actrizes mais novas para os papéis, só um pensamento), contem com uma percentagem de 0,00000000000123% de testosterona neste filme, toda a gente a dada altura pensa em matar-se ou chega mesmo a suicidar-se, os colégios femininos são um inferno e os tipos que trataram do marketing dos filmes são uns génios. Se desejam descobrir em que se baseiam estas impressões sigam sem demoras para o TOP Saga “Whispering Corridors” do Not a Film Critic.

“Whispering Corridors 2” – Memento Mori (1999): Min-ah é uma colegial demasiado curiosa para seu próprio bem que encontra o diário esquecido de uma colega de turma. Ao invés de o devolver ela dedica-se a explorar cada página que foi decorada como se de um tesouro se tratasse por Shi-eun e Hyo-shin de quem corre o rumor de que estão envolvidas romanticamente. Quando Hyo-shin salta do telhado da escola para a morte, Min-ah e as colegas começam a ser alvo de eventos sobrenaturais cada vez mais aterrorizantes. Conseguirá Min-ah descobrir a ligação entre o diário e o fenómeno antes que seja tarde demais?

“Whispering Corridors” (1998): O último ano de secundário inicia-se com uma tragédia. Park, uma professora a quem as alunas chamavam pouco afectuosamente de “Velha Raposa” é encontrada morta por enforcamento, na escola por duas alunas. Jae-yi é a típica rapariga tímida em quem ninguém repara até ao último ano e Ji-oh é a jovem artista cheia de talento que os professores conservadores adoram odiar. Elas encontram numa sala de aulas desactivada o local onde estudar e criar arte sem ninguém as incomodar. Diz-se pela escola que o local é assombrado pelo fantasma de uma antiga aluna que morreu ali 9 anos antes e que esse evento poderá estar relacionado com a morte da professora Park.

“Whispering Corridors 4: Voice” (2005): Young-eon passa os dias a treinar canto com a professora ou se deixa ficar até bem tarde de noite, no estúdio da escola. Um dia ela ouve um barulho e ao investigar, acaba por ser assassinada com uma pauta de música. Ela transforma-se num fantasma condenado a vaguear os corredores da escola até conseguir alcançar um qualquer tipo de resolução que lhe permita passar para o outro lado. A sua única esperança é a melhor amiga Sun-min que parece ser capaz de a ouvir do além. Recorrendo às últimas memórias antes da morte e a investigação no mundo dos vivos de Sun-min tentam descobrir quem está por trás da sua morte.

Domingo, 28 de Abril de 2013

"Forbidden Siren" (Sairen, 2006)


Mais uma adaptação desnecessária de um jogo de playstation para a grande tela. Porquê, clamam as audiências internacionais? Não bastava já termos de sofrer com cinco filmes da série "Resident Evil"?
 
“Forbidden Siren” inicia-se com um mistério. Em 1976, os habitantes de uma ilha desapareceram sem deixar rasto, isto é, todos menos um, que é encontrado a falar de modo incoerente. Nos dias de hoje, Shinichi Amamoto (Leo Morimoto) é um jornalista freelancer que viaja com os filhos Yuki (Yui Ichikawa) e Hideo (Jun Nishiyama) para a ilha de modo a que recuperem de um acidente traumático. A viagem é uma má ideia, que a audiência já sabe de antemão dado os acontecimentos passados e devia ser também um sinal para Shinichi visto que os habitantes são tudo menos calorosos. Os personagens dos filmes de mistério, até pelo menos à primeira meia hora de filme, nunca são perspicazes. À frieza da população juntam-se outros indícios ainda mais alarmantes. A casa que irão habitar demonstra vestígios de sangue e a vizinha avisa Yuki de que nunca deverão deixar a casa quando ouvirem a sirene. Esta encontra-se numa torre de metal abandonada numa zona remota da ilha. Depois deixem os factos a torturar o subconsciente de uma adolescente impressionável e eventos graves serão uma inevitabilidade. Yuki tenta ultrapassar a muralha de silêncio tácita entre os habitantes, tornando-se, desde cedo claro que ela é uma estranha e portanto, indigna da sua confiança. Por outro lado, para um pai preocupado, Shinichi encontra-se a leste dos efeitos da curiosidade prodigiosa da filha. Não era suposto irem para a ilha “curar velhas feridas”?
O maior elemento a favor de “Forbidden Siren” (se não jogaram primeiro o jogo) é não se saber exatamente para onde nos querem levar. Por isso, não é como se o elemento mistério não estivesse presente e, em 5 minutos de filme se soubesse antecipadamente o final. A problemática reside no facto de as perguntas persistirem sem resolução. Até onde é que uma pessoa aguenta? Mistério apenas pelo mistério, de nada vale se os argumentistas não começarem a apresentar propostas de solução. O enredo sai cada vez mais embrulhado e onde antes existia ansiedade agora reside frustração. Até pormenores que prometiam, não oferecem a menor hipótese de redenção. “Siren” significa sirene mas também sereia. É o canto da sereia que arrasta as pessoas para a morte?! Potencial desperdiçado. O mesmo também pode ser dito dos actores. Yui Ichikawa é quem tem mais tempo de antena mas entre as suas orelhas proeminentes e os gritos histéricos, agudos, não posso afirmar que me recorde grandemente das capacidades de representação da jovem. Quanto ao pequeno Hideo, ele faz tudo o que lhe é dito para não fazer mas o castigo queda-se por uma leve reprimenda. Deve ser aquele estilo parental modernaço que deixa as crianças ser livres. Isto é, fazer tudo e mais alguma coisa e a culpa nunca é dos pais, porque a criança é um pequeno-adulto capaz de tomar decisões livremente. Pois…
“Forbidden Siren” tem pouco de memorável. A banda-sonora é decente e a representação ainda que não extraordinária também não é horrenda. Os cenários e a caracterização dos personagens a par do argumento constituem as maiores fraquezas do filme. Por comparação, o design do jogo é extremamente profissional, o que leva a pensar que “Forbidden Siren” é desnecessário e um mau cartão-de-visita. Tendo sido desenvolvido para coincidir com o lançamento do segundo jogo da série não consigo imaginar muitas pessoas a ir comprar o jogo depois de ver este filme. Já o contrário parece mais provável. Uma estrela e meia.

Realização: Yukihiko Tsutsumi
Argumento: Naoya Takayama
Yui Ichikawa  como Yuki Amamoto
Leo Morimoto como Shinichi Amamoto
Jun Nishiyama como Hideo Amamoto

Próximo Filme: Série “Whispering Corridors, 1998-2009

Domingo, 21 de Abril de 2013

"Secret Sunday" (9 Wat, 2010)


Há qualquer coisa de mágico na câmara de Saranyoo Jiralak que se encontra algures entre o naturalismo digno de um National Geographic e o programa de viagens dedicado ao turismo religioso. A sensação permanente de voyeurismo intruso é o que distingue “Secret Sunday” de um documentário. As cenas de jovens citadinos cheios de estilo a irromper por entre os raios de sol a tocar as paredes de templos milenares trazem a certeza de arte. Estátuas, fotografias, animais, pneus de um automóvel, as árvores de uma floresta… Ajudam a contar a viagem de uma vida para um casal e o monge a quem deram relutantemente boleia.

“Secret Sunday” (não me perguntem a razão de ser do nome porque até ao momento ainda não percebi), cujo título na Tailândia é 9 wat, literalmente, nove templos narra a estória de Nat (James Alexander Mackie) e a sua namorada Phoon (Siraphan Wattanajinda) que se propõem a a percorrer nove templos em sete dias para expurgar o mau karma de Nat a conselho da mãe de Nat. A senhora, uma budista devota acredita que o filho está rodeado de energias negativas e que o filho deve procurar o caminho da religião para se conseguir salvar. Nat acede a fazer a viagem mais pelo desejo de férias do que por uma crença profunda nas convicções da mãe. Já Phoon questiona mas não recusa a sugestão pois não é ateísta além de que tem as suas próprias preocupações.  O seu caminho cruza-se com o de Sujitto (Pradon Sirakovit) um monge budista que parece saber mais sobre o que está a afligir o casal e que também está ligado ao passado de Nat... Este podia ser o início perfeito de uma viagem de descoberta para um ateu, uma agnóstica e um crente mas 9 wat, a despeito da óbvia ligação religiosa trilha outros trajectos. “Secret Sunday” é um road-movie/thriller sobrenatural. Phoon é a protagonista e com razão já que à sua presença magnética, se juntam um cabelo curto pintado de louro platinado e roupas escolhidas a dedo que a fazem sobressair entre a multidão tailandesa. A sua personagem representa a oportunidade perfeita para apresentar a jovem moderna, independente e um pouco promiscua na tela. Phoon representa uma imagem indesejável para a jovem tailandesa tradicional, escapando à caracterização da maioria das personagens femininas que percorrem os ecrãs do país, puras, crentes e respeitáveis. No entanto, é deixado para o julgamento do espectador se Phoon surge como uma manobra arriscada de trazer uma personagem um pouco mais colorida para o grande ecrã ou, se o sofrimento da jovem decorre do seu comportamento pouco convencional. A actriz é ainda aquela a quem foi dado mais material.
Nat e Sujitto, até ao último quarto de hora de filme praticamente não apresentam qualquer conflito, com a agravante de que Nat nunca demonstra mais do que um feitio irascível e qualidades de boy toy que explicam o inicio da relação e o seu potencial de fim. Nat recusa terminantemente a existência da divindade enquanto o monge aceita cegamente a sua existência, pelo que a sua maneira de ver o mundo nunca é, até ali, questionada. É Phoon quem se apercebe das nuances e sofre por causa disso. Isto não quer dizer que qualquer pessoa com um mínimo de sensibilidade se aperceba de espíritos a olhar por cima do ombro ou outras coisas que não existem no plano real. Não, isso já faz parte do filme. E é também se encontram as maiores fraquezas de “Secret Sunday”. A introdução do sobrenatural é absolutamente desnecessária. Muitas das cenas são assustadoras ou quedam-se lá perto mas era perfeitamente plausível que Phoon e Nat fossem atormentados (apenas), devido ao passado e aos segredos que guardam. As suas motivações e medos também podiam ser conduzidos pela fase de vida em que se encontram. Já estão juntos há algum tempo e pode ter chegado a altura de explorar se a sua relação deverá ter continuidade ou se a sua união deixou de fazer sentido. Uma road-trip onde uma série de peripécias os leva a questionar o percurso de vida e o futuro que pretendem seguir. Mas considerando o mercado tailandês o elemento terror possui um alto nível de atracção que leva a que, sejam produzidos muitos filmes direccionados para esse tipo de público e, com bastante frequência, sejam produzidos muitos que pecam pela falta de qualidade. É por isso, lamentável, que no meio dessa montanha de obras, gemas como esta permaneçam por descobrir. Três estrelas e meia.
Realização: Saranyoo Jiralak
Argumento: Saranyoo Jiralak
James Alexander Mackie como Nat
Siraphan Wattanajinda como Phoon
Pradon Sirakovit como Sujitto


Próximo Filme: "Forbidden Siren" (Sairen, 2006)

PS: Não fui eu que vos disse que este filme está disponível, na integra, no youtube com legendas em inglês.

Domingo, 14 de Abril de 2013

"Gantz" (Gantz: Zenpen, 2010)



Cenário: Acordam numa sala com pessoal que não conhecem de lado nenhum e com uma enorme bola preta onde surge uma mensagem que diz que 1) Existem aliens e 2) têm vinte minutos para matar o alien cuja imagem surge no ecrã. A primeira reacção deve ser qualquer coisa entre um: “tenho de largar as drogas!” e beliscar-se para acordar. Mas e se não acordarem e chegarem à conclusão que o cenário é real, que não é uma brincadeira de mau gosto e que se querem permanecer vivos têm de atirar a matar? Que tal isto para programa de diversão nocturna? Kei Kurono (Ninomyia Kazunaru) e Masaru Kato (Kenichi Matsuyama) são dois amigos que morrem atropelados por um comboio após tentar salvar um homem bêbado que caiu nos carris do metro. A bola negra transporta-os para a sala e dá-lhes uma nova oportunidade mas não está longe de ser um pacto com o diabo. A nova vida tem um preço: têm de matar aliens e a cada nova morte recebem pontos. A recompensa por atingir os 100 pontos é a possibilidade de esquecer o que passaram e não mais voltar àquela sala ou ressuscitar um dos muitos que já morreram antes deles a combater as criaturas invasoras. Aparte o segredo da sala que lhes irá, eventualmente, custar a vida (admitamos que os aliens são cada vez mais rápidos, furiosos e maiores), têm uma vida e entes queridos que não querem deixar sozinhos. Kato tem um irmão mais novo que não quer deixar entregue a assistentes sociais e Kei torna-se alvo das cada vez mais óbvias investidas românticas de Tae Kojima (Yuriko Yoshikata).
Assim a meios que a morte pode ser um impedimento no reatar de ligações familiares e românticas. Sobretudo, no que diz respeito a Kato e Kishimoto (Natsuna) que se conhecem na sala do Gantz.
“Gantz” é um dos melhores filmes resultantes de adaptações de anime e mangá, dos últimos anos. Se não conhecerem a mangá ou o anime, como era o meu caso, mesmo assim irão sentir que não estão a perder informação preciosa. “Gantz” tenta apelar ao máximo número de faixas etárias possível, sacrificando pelo caminho, carradas de nudez e de sexo. Também o protagonista deixa de ser um tarado sexual para passar a ser apenas um sujeitinho arrogante, com manias de grandeza a quem é ensinada uma grande lição. É uma adaptação digna de quem conhece bem o público-alvo.
As cenas de acção, nomeadamente, de perseguição e combate aos extra-terrestres são as mais interessantes e, se quisermos dar largas ao pequeno malvado que existe dentro de nós, pode-se sempre fazer apostas sobre quem chegará ao fim de mais uma caçada. As cenas de acção são tão competentes que a série com actores reais chegar ao pequeno ecrã não seria de menosprezar. Imaginem se a cada novo episódio tivessem um grupo de cidadãos “destacados” para matar o alien du jour? Como é óbvio a perfeição não existe e as cenas iniciais começam por ser irritantes já que os escolhidos são tão incompetentes que cometem todos os erros possíveis para se deixar ferir, matar ou negligentes a ponto de deixar colegas morrer. “Gantz” não está isento de dilemas morais. Matar um ser vivo, mesmo que este não pertença ao mundo como o conhecemos apresenta-se um problema para a maioria dos escolhidos. E não é como se tivessem grande alternativa: se quiserem viver têm de matar ou esconder-se bem. Temo que esta última opção não deixe de acarretar um alto grau de risco. Se calhar poderíamos alegar preocupações humanistas e que a morte seria um fim mais digno mas creio que isso não estaria longe da hipocrisia. Além disso, há pais, irmãos, namoradas…quem consegue resistir ao apelo da vida? E depois há os psicopatas e aqueles cuja ilusão de poder os faz regredir aos estádios mais primários da existência humana: vale tudo para não sobreviver. Mas ao invés de se restringir a uma luta selvática pela sobrevivência “Gantz” “agarra” as personagens principais como Kei e Kato, jovens imaturos e que pouco sabem da vida e fá-los crescer, tornar-se os heróis que nunca quiseram ser e reconhecidos por poucos, até há muito provavelmente breve morte. Nesse sentido, “Gantz” não é apenas um filme sci-fi de acção desmiolado. Obrigada, as audiências do século XXI agradecem. Três estrelas e meia.


Realização: Shinsuke Kato
Argumento: Yosuke Watanabe e Hiroyia Oku (autor da banda-desenhada)
Ninomyia Kazunari como Kei Kurono
Kenichi Matsuyama como Masaru Kato
Yuriko Yoshikata como Tae Kojima
Natsuna como Megumi Kishimoto
Taguchi Tomorowo como Suzuki Yoshikazu
Kensuke Chisaka como Ayumu Kato


Próximo Filme: "Secret Sunday" (9 wat, 2008)

Domingo, 7 de Abril de 2013

"Riding Alone for Thousands of Miles" (Qian li zou dan qi, 2005)



Quanto quilómetro é necessário percorrer até se obter perdão? Até onde somos capazes de ir para sermos perdoados? O “para sempre” apenas existe até que uma das partes teimosas em oposição decidir que a dor da inexistência de relacionamento é mais penosa que a existência de uma relação complicada.

Takata (Ken Takakura) é um velho casmurro que apenas põe o orgulho de lado quando a nora Rie (Terajima Shinobu) lhe diz que Kenichi (Kiichi Nakai), o filho dele, se encontra doente. O rancor de muitos anos de desavenças e anos sem qualquer contacto ainda não abandonou Kenichi e este recusa-se a ver o pai que veio de propósito a Tóquio para o ver. Quando Rie diz a Takata que Kenichi sofre de cancro em estado terminal ele agarra-se ao único objecto que tem do filho, um documentário que ele realizou na vila remota de Lijian, na China. Kenichi filmou Li Jiamin, um cantor de ópera local que lhe prometeu que na sua próxima visita lhe cantaria uma obra pela qual tinha especial interesse. Com a vida do filho por um fio, Takata toma a inesperada decisão de viajar pela China rural para encontrar o cantor e filmá-lo a cantar a obra que Kenichi nunca terá oportunidade de assistir em pessoa.
“Riding Alone for Thousands of Miles” é uma desilusão para quem espera um filme grandioso de Zhang Yimou. Na verdade ele tornou-se tão conhecido nos últimos dez anos pelos épicos wuxia como “Hero” (2002) ou “The House of the Flying Daggers (2004) que muitos esqueceram obras como “Raise the Red Lantern” (1991), existindo até casos em que há uma cisão declarada entre os preferem a filmografia de cariz mais espectacular e os que preferem a sua câmara mais comedida. A grandiosidade de “Riding Alone for Thousands of Miles” reside nas paisagens de tirar o fôlego e na representação dos actores que envolve longas sequências de momentos “Lost in Translation”. É que Takata chega a uma altura da viagem em que é acompanhado por um guia que sabe muito pouco japonês para o compreender e todos os outros não o compreendem de todo. Por isso, as cenas alternam entre o falar sem ser compreendido ou apenas em parte e as tentativas de explicação ao estranho senhor japonês que veio à China ver um simples cantor rural. Takata é um homem sem tempo e quanto mais se embrenha na paisagem chinesa mais terá de lidar com pessoas que estranham as suas intenções e que se refugiam nas burocracias para não ferir as leis e sensibilidades locais. E os processos atrasam e Takata, sem conseguir fazer-se entender, tem de recorrer à lisonja e ao suborno para conseguir obter algum tipo de consentimento, que ainda há valores universais.
As expressões de incompreensão, frustração e cansaço constituem os momentos mais realistas da película, os viajantes mais do que todos decerto compreenderão. No entanto, Yimou recusa-se a que a população chinesa se aproveite de Takata. A sua viagem não é de roubo ou decepção, é uma viagem de muitos quilómetros na China e no interior de um homem.
“Riding Alone for Thousands of Miles” é uma estória intimista, simples. A narrativa conta a aventura de um pai que redescobre um modo de se ligar ao filho e que embarca numa viagem que o faz repensar as acções dos dois e, com a maturidade da idade perdoar e ser perdoado. Yimou escapou ao cliché da “mudança nos sentimentos por causa de um evento grave”. A personalidade não muda. Takata continua tão teimoso como nos instantes iniciais da película, os motivos é que se alteraram grandemente. Enquanto há vida não há urgência e agora, que Kenichi está prestes a desaparecer do mundo dos vivos, Takata dedica-se com o mesmo fervor de quem evitou o filho durante anos, a estabelecer um ligação emocional com ele. Mas esta estória não é apenas a de Takata e de Kenichi, é também a estória de um pai e um filho chineses, cujas vidas são tocadas quando o cidadão senior japonês decide visitar uma aldeia remota, aproximando também os dois países. Três estrelas e meia.

Realização: Zhang Yimou
Argumento: Zhang Yimou, Jingzhi Zou e Bin Wang
Ken Takakura como Takata
Kiichi Nakai como Kenichi (voz)
Terajima Shinobu como Rie
Jiamin Li como Li Jiamin
Jiang Wen como Jasmine
Lin Qiu como Lingo
Zhenbo Yang como Yang Yang

Próximo Filme: "Gantz", 2010

Domingo, 31 de Março de 2013

"Death Bell 2" (Gosa 2, 2010)



Um dos slogans para este filme podia ser: “adolescentes idiotas continuam sem saber dominar regras básicas de sobrevivência”. Isso, ou então é um universo qualquer em que não vêem filmes de terror. Podiam ver o “The Cabin in the Woods” (2011), por exemplo, a ver se aprendiam algumas coisinhas. Desculpem alguma coisa mas custa-me ver a juventude reduzida a uma cambada de ignorantes sem inteligência ou artificio. Se o futuro se reduz a uma juventude com as capacidades intelectuais equivalente à dos personagens deste filme a Coreia do Sul espera uns próximos anos complicados.
“Death Bell 2: Bloody Camp” trilha o mesmo caminho do antecessor: um slasher onde os alunos de uma escola são carne para canhão, com a promessa de mais sangue e mortes ainda mais elaboradas. A estória deste filme não tem ligação à do filme de 2008, dando apenas uma piscadela de olhos aos eventos anteriores. Tae-yeon (Seung-ah Yoon), a estrela da equipa de natação da escola é encontrada morta na piscina. Suspeitando que a rapariga se atirou da prancha superior, as autoridades declaram a morte acidental. Entretanto, a meia-irmã dela Se-hee (Jiyeon Park), que também frequenta essa escola passa um mau bocado às expensas de Ji-yoon (Ah-jin Choi) e as suas amigas. Após o assassinato da professora de natação, os alunos descobrem que estão encurralados na escola e sem hipótese de ajuda do exterior. A única hipótese de sobrevivência reside em serem capazes de solucionar quem é o assassino e o seu motivo… Como ali parece não haver duas pessoas com mais de dois neurónios entre elas, as mortes sucedem com alguma frequência. Mais por culpa da sua própria inabilidade do que por uma inteligência extraordinária do assassino. Eles dedicam mais tempo às quezílias de miúdos que não têm mais nada que fazer e a tomar atitudes desprovidas de sentido como separar-se e apontar o dedo aos que percepcionam como mais fracos. Do género: “pode ser que o assassino esteja mais interessado em apanhá-lo do que a mim” ou “se o assassino for atrás dela dá-me tempo para fugir”… Não ficam extremamente orgulhosos da humanidade nestas alturas?
“Death Bell 2: Bloody Camp” sofre sobretudo por ser a sequela de um filme francamente superior à maioria dos filmes de terror que andam por aí. Esta sequela é um esforço desleixado. Não aprenderam nada com o primeiro filme que tinha uma estória minimamente compreensível, um par de protagonistas sólidos e com quem se simpatizava com facilidade e encenação das mortes bem construída. Em “Death Bell” sofria-se com antecipação de uma próxima vítima cuja entidade nunca era óbvia. A tensão era crescente e desde que a semente era plantada até ao golpe final era um martírio, não só pelos requintes de malvadez mas pela incapacidade de prever se estudantes e professores seriam capazes de juntar esforços com sucesso para salvar a vítima. “Death Bell 2: Bloody Camp” afasta desde logo a possibilidade de união entre os estudantes, tornando a tarefa de todo em todo mais simples para a mente malévola por detrás dos crimes e menos excitante para os espectadores. O enredo é muito mais intricado e faz ainda menos sentido que o primeiro filme. Só no último quarto de hora é que finalmente se compreendem os porquês da trama. Por essa altura, não só a probabilidade de acreditarmos no que estamos a ver é diminuta como já nem interessa.
Os personagens são em demasia e demasiado desinteressantes, malcriados e insolentes. Jiyeon Park que interpreta a única personagem com quem nos devíamos identificar é terrível no papel de Se-hee. Onde a representação do filme anterior era respeitável, aqui está ao nível de alunos do primeiro ano do curso de representação que foram lá parar por engano. A sua presença não é de todo inocente. Ela é considerada jeitosa na Coreia do sul e é membro do grupo de k-pop T-ara. Se bem se recordam, em “Death Bell”, a companheira de banda Eun-jung Ham era uma personagem-chave. A diferença está em que enquanto esta última é uma boa actriz, Jiyeon, bem… E eu adoro um bom golpe de marketing como o próximo, quando resulta. É um tédio. Um slasher que é um tédio? Sim, leram aqui primeiro. Duas estrelas.
Realização: Seon-dong Yoo
Argumento: Hye-min Park, Jeong-hwa Lee e Gong-ju Lee
Ah-Jin Choi como Ji-yoon
Jeong-eum Hwang como Eun-su Park
Chang-wuk Ji como Soo-il
Su-ro Kim como Seong-sang Cha
Hyeon-sang Kwon como JK
Bo-ra Nam como Hyeon-a
Eun-binPark como Na-rae
Ji-yeon Park como Se-hee
Un-son Ho como Jung-bum
Seung-ah Yoon comoTae-yeon
Shi-yoon Yoon como Kwan-woo

Próximo Filme: "Riding Alone for Thousands of Miles" (Qian li zou dan qi, 2005)
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